5 de fev de 2009

No editorial de uma recente edição do Meio & Mensagem, Regina Augusto revela um fato, no mínimo, intrigante da viagem que fez à Índia: "...Uma das coisas que mais chama a atenção nas ruas, tanto de Bombaim quanto de Nova Délhi, é que os meninos que ficam nos semáforos vendem livros, e não balas com coisas sem nenhum valor, como acontece nas grandes cidades brasileiras. E não são livros usados ou velhos, mas lançamentos e best sellers, como o novo volume de Thomas Friedman, Hot, Flat and Crowded, ainda inédito no Brasil, e Eat, Pray and Love, de Elisabeth Gilbert".

O ideal é que crianças não precisem vender nada na rua para sobreviver, mas penso que essa descrição vale por si só uma reflexão sobre o país que temos e o país que queremos.

Eis alguns números:

4,7 livros – é a média de leitura anual da população brasileira, incluindo a Bíblia e livros didáticos e técnicos, segundo pesquisa feita no ano passado com adolescentes e adultos pelo Instituto Pró-Livro
1,3 livro – é o número de obras que os brasileiros lêem por ano por vontade própria, sem ser obrigados por escolas ou universidades
1,1 livro – é o número de obras que as pessoas compram por ano
39% dos leitores brasileiros têm até 17 anos, ou seja, estão em idade escolar e lêem livros indicados pela escola; 14% têm entre 18 e 24 anos, idade compatível com ensino superior.


Apesar de tudo isso, uma iniciativa isolada que vem acontecendo há alguns anos na capital federal serve como alento. Luiz Amorim, garoto pobre, começou a trabalhar aos 12 anos, foi alfabetizado aos 16 e leu seu primeiro livro aos 18. Empregado de um açougue praticamente falido chamado Triângulo e Damasco, fez uma proposta e o arrematou no longínquo ano de 1994. Imediatamente mudou o nome do estabelecimento para T-Bone. Em meio à peças de fraldinha e picanha, Luiz abriu uma estante onde empilhou alguns livros que passariam a ser oferecidos gratuitamente para a leitura dos clientes, que depois os devolveriam. Começou com dez livros, hoje tem um acervo de 10 mil.

Inquieto, criou um projeto de noites culturais, cujo propósito era oferecer um espaço para que o público pudesse ter contato direto com escritores, músicos e artistas plásticos. As reuniões começaram modestas, agrupando cerca de 30 pessoas. Hoje, dez anos depois, contabilizam-se mais de 150 mil pessoas e mais de 500 artistas para participar desta celebração à arte na entrequadra 312/13 da Asa Norte. Artistas de renome nacional já se apresentaram no projeto, entre eles: Moraes Moreira, Chico César, Guilherme Arantes, Célia Porto, Tom Zé, João Donato, Geraldo Azevedo, Jorge Mautner, Belchior, Erasmo Carlos, e outros.

Luiz não parou por aí e estendeu a biblioteca para os pontos de ônibus da cidade. O novo projeto consiste em pequenas livrarias instaladas em 15 pontos estratégicos. A pessoa chega para esperar seu ônibus e aproveita para dar uma olhada nos livros. 'Gostou? Pode levar, mas tem que devolver'.

Pena, enfim, que a história de Luiz, um legítimo mosca branca, seja um caso isolado. Por ora, temos sim que nos contentar em vislumbrar espantados as pobres crianças distribuindo livros nas ruas indianas.

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