2 de abr de 2012

A Dieta da Informação

Segue abaixo resenha que fiz do livro 'The Information Diet', de Clay Johnson, que foi publicada hoje pelo MidiaBoom.

A Dieta da Informação


Com que tipo de informação você anda se alimentando ultimamente? Qual a procedência das informações que constituem a sua dieta alimentar? Tem atentado para o teor calórico das informações que ingere? E, a propósito, você come informação sempre nos mesmos lugares ou costuma variar.

À primeira vista, as questões levantadas acima podem parecer meio fora de propósito, mas fazem todo o sentido após ler ‘The Information Diet’, obra assinada por Clay Johnson, mais conhecido como fundador da Blue State Digital, empresa que criou e gerenciou a campanha online de Barack Obama para a presidência dos Estados Unidos em 2008.


Para Clay, todo o debate em torno daquilo que muitos vem chamando de obesidade de informação é um grande equívoco. As pessoas não são obesas, por exemplo, por conta da abundância de comida, ou seja, o doce não chega voando até a boca delas; o mesmo paralelo pode ser construído no caso da informação. “Sempre houve mais conhecimento e experiência humana do que qualquer humano pode absorver. Não é a quantidade total de informações existentes, mas sim seu hábito de absorver informações que está lhe empurrando para um extremo em que você se sente desconfortável.”
Toda a tese de Clay está justamente amparada na comparação entre comida e informação. “As coisas que sabemos sobre nossa alimentação tem muito a nos ensinar sobre como podemos ter um relacionamento mais sadio com as notícias que chegam até nós.”

O diagnóstico está centrado na seguinte equação: sede por audiência das empresas de mídia (lucros) + enxugamento das redações + profissionais despreparados = informações mais calóricas (sensacionalismo). Não se engane, contudo, em achar que a metralhadora de Clay está apontada para a chamada ‘imprensa marrom’. Seu foco maior é o que ele chama de ‘cultura da afirmação’. “As companhias de mídia aprenderam que afirmação vende muito mais fácil e melhor do que informação. Quem quer ouvir a ‘verdade’ quando pode ouvir que está certo?”

Cada vez mais, lemos, assistimos, ouvimos, seguimos pessoas nas redes sociais que tem pontos de vista similares aos nossos. O resultado disso é uma visão maniqueísta do mundo – o verde e o vermelho, o direito e o esquerdo, o bom e o mal – e, como tal, o esmorecimento do racional em prol do emocional. Para ter a prova cabal disso, o Twitter talvez seja o espelho mais sintomático. Dê uma olhada na sua timeline e veja como o seu universo é repleto de comentários que parecem estar dizendo o tempo todo: “Você está certo!”

A Fox News merece um capítulo inteiro do livro de Clay Johnson. O império capitaneado por Roger Ailes seria o principal ícone desse modelo de jornalismo conciliatório, se é que podemos dizer assim.  A estratégia  não me parece muito diferente daquilo que temos visto por aqui: ‘é mais rentável pagar 2 milhões de dólares de salário para uma grande personalidade da mídia do que contratar 100 jornalistas e analistas com rendimentos de 40 mil dólares por ano’. A receita tem dado certo. A Fox News, líder absoluto de audiência entre os canais de notícias nos Estados Unidos, hoje emprega 1272 pessoas em 17 escritórios, contra 4000 pessoas e 47 escritórios da CNN, a terceira no ranking, superada recentemente pela MSNBC, que vem seguindo a mesma fórmula da Fox.

Decorrência dessa cultura da afirmação é a ascensão da profissão de relações públicas em detrimento do jornalismo. Segundo o Bureau of Labor Statistics, em 2008 havia 69.300 profissionais de imprensa nos Estados Unidos, ganhando em média $ 34.850/ano. A expectativa é de um declínio de 4% nos próximos dez anos. O universo de PR, como eles chamam lá, parece caminhar no sentido oposto. Em 2008, havia 275.200 profissionais da área no país ganhando em média $ 51.280/ano. A expectativa para os próximos dez anos, nesse caso, é de um incremento de 25%.

Não tenho informações sobre o mercado brasileiro, mas imagino que caminhe na mesma direção. Nossas fontes de informação, não por acaso, se assemelham cada vez mais a statements de coletivas de imprensa, quando não ao copy & paste de press releases.

Em última instância, nós somos o que consumimos e temos urgentemente que estabelecer uma dieta. O primeiro passo, de acordo com Clay, é gerenciar melhor seu tempo entre consumo e produção. “Cada e-mail que recebemos, cada sms ou notificação, vem acompanhados de uma boa dose de dopamina. Esse neurotransmissor não tem apenas como função a atividade estimulante do sistema nervoso central, mas também distorce o nosso senso temporal. Nós podemos passar uma hora vendo nossos e-mails e ter a sensação de que foram apenas alguns minutos.”

Pergunte a qualquer nutricionista e você será informado que uma dieta não é sobre não comer – é sobre a mudança de seus hábitos. Para começar a ‘perder peso informacional’, portanto, assine feeds, use filtros, crie listas e diretórios para se organizar.  Feito isso, priorize as fontes locais de informação – seu jornal de bairro, sua rádio comunitária, tende a cobrir com muito mais assertividade o que acontece nas suas redondezas do que a Rede Globo de Televisão. Para enriquecer seu conteúdo, procure se abastecer de pontos de vista contraditórios, opiniões divergentes – política, religião e futebol se discutem sim. Finalmente, já que estamos falando de uma dieta, evite num primeiro momento rodízios e pizzarias, se é que você me entende…

A parte final de The Information Diet, nomeada Dear Programmer, poderia resultar, na verdade, em um novo livro. Clay começa falando da importância dos escribas há mil anos atrás, quando poucos sabiam ler ou escrever, e desemboca no papel importante que os jornalistas ‘tiveram’ a partir do desenvolvimento da imprensa escrita. Tiveram, porque para ele esse tempo acabou. É a hora e a vez dos programadores e desenvolvedores, desde que esses não se restrinjam a seguir na busca tresloucada de serem os próximos Mark Zuckerberg e Larry Page. O apelo que fica é: “Reservem um tempo do seu dia para desenvolverem aplicativos e soluções que permitam com que a comunidade ao seu redor possa resolver pequenos problemas. Digo, pequenos problemas, porque tem muita gente empacada com os grandes problemas. E esses, invariavelmente, não saem do lugar.”

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